O acordo é apresentado pelos signatários de 1990 como um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa. Isto é uma patetice. Não se alcança unidade nenhuma, como resulta logo do próprio e momentoso arrazoado.
Por um lado, atente-se na disparidade dos critérios adoptados:
Enquanto o "h" inicial, que não se pronuncia, se mantém por força da etimologia, o "c" elimina-se quando é mudo em certas palavras, apesar de, nelas, decorrer igualmente da etimologia, de nem sempre ser líquido que não seja semi-pronunciado, e de se conservar, noutras palavras, quando é proferido nas pronúncias cultas da língua.
(...)
Por outro lado, basta pensar nas facultatividades ou grafias alternativas consagradas para toda uma série de casos. Vê-se logo que não asseguram unidade nenhuma, antes a comprometem:
Por exemplo, aquele mesmo "c" conserva-se ou elimina-se facultativamente quando oscila entre a prolação e o emudecimento(...).
A consequência deste tipo de facultatividade é a de não ser a norma, mas sim a maneira de pronunciar de cada um que determina a grafia. Fica tudo à vontade do freguês… o que é uma excelsa maneira de assegurar "a unidade essencial da língua".
A fermosa unidade é ainda assegurada noutros passos extraordinários. Não resisto a transcrever este: "Levam acento agudo ou acento circunflexo as palavras proparoxítonas, reais ou aparentes, cujas vogais tónicas/tônicas grafadas e ou o estão em final de sílaba e são seguidas das consoantes nasais grafadas m ou n, conforme o seu timbre é, respetivamente, aberto ou fechado nas pronúncias cultas da língua: académico/acadêmico, anatómico/anatômico, cénico/cênico, cómodo/cômodo, fenómeno/ fenômeno, género/gênero, topónimo/topônimo; Amazónia/Amazônia, António/Antônio, blasfémia/blasfêmia, fémea/fêmea, gémeo/gêmeo, génio/gênio, ténue/tênue".
Ante esta unidade essencial assim… “preservada”, eu, que me prezo de ter algum currículo, só posso dizer, quanto àquele luminoso emparelhamento “fémea/fêmea”, que nunca avistei uma "fémea" nem por cá, nem por outras paragens.
No tocante aos países que mais dependem da cooperação portuguesa, vai ser bonito…
No que a nós diz respeito, o acordo não é só uma enormidade cultural. É uma irresponsabilidade política, social, económica e geo-estratégica! É para isso que estamos na CPLP? E quem é que manda? O Ministro dos Negócios Estrangeiros que anda a anunciar a rápida entrada em vigor? A Ministra da Educação que não falou do assunto? A da Cultura que ao menos teve a sensatez de pedir uma moratória de dez anos?
Só mais um exemplo: se os negociadores destas trapalhadas quiserem escrever no perfeito do indicativo “andamos a fazer uma triste figura”, mas não puserem acento agudo na forma verbal por ele ser facultativo, poderá ler-se a frase no presente e foge-lhes a grafia para a verdade…
21.11.2007
(Vasco Graça Moura, in «Diário de Notícias»)
quinta-feira, 24 de julho de 2008
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1 comentário:
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